"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
(Campos, Álvaro de. Tabacaria. Portugal, 1928)

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Raios



Estive me perguntando esses dias, de onde vem o amor.

Ele vem dos planos, da incerteza, e de você.



Hoje a mensagem é que você irradia amor. O meu.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Quem lava a louça?



          Estávamos conversando sobre quem lavaria a louça naquele futuro ideal e entre segundas e quartas ou terças e quintas o assunto morreu em risadas, era uma segunda feira a noite com algum brilho na lua e um clarão de alegria nos dois pares de olhos que se entre olhavam. Era uma calmaria, depois de velejarmos por mil tempestades, depois de enfrentarmos mil monstros e depois de nos perdermos mil vezes, tínhamos uma calmaria. Era um abraço, algo para comer e a vista do infinito, como se nossas vidas fossem infinitas e ignorássemos o fato de que, se realizarmos todos os nosso planos, morreremos com 200 anos. Planejamos 3, até 4 vidas juntos e nem percebemos.
         Mas todo carnaval tem sua quarta-feira.
         Dormimos ao som do cavaco e acordamos cantarolando, sol a pino e sem ao menos imaginar que a última tempestade estava por vir. Porque é assim, se você já está sob a chuva até guarda seus pertences e se prepara para nadar, se não... E ela veio, foi então que percebi que navegando ali só tinha eu, estava eu velejando por mares revoltos enquanto ela podia nadar, Eu era barco. Ela era mar.
         Agora não adiantaria mais nada, era eu preso como um pilar ao chão e ela mergulhando e saltando sobre a água como se tivesse asas. Aquele navio afundou comigo, ao léu dos esforços daquela menina, estava eu, no fundo do mar, abraço comigo mesmo e esperando por nada.
         Recusei sim a oferta dela me carregar, já tínhamos tentado, não tenho asas, voltarei sempre ao chão ou serei peso morto, qualquer das possibilidades me dá arrepios. Por mim, velejava numa lagoa, ou melhor, velejava no quintal de casa, em terra firme, em segurança. Tenho medo de altura, também não voaria longe. Ela voou, eu fiquei.


        No fim não decidimos quem lavaria a louça, mas acho que está implícito, os dois lavam, cada um a sua, cada um na sua.


No fim os dois perdem, risos.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Parabéns Mãe




Oi Leticia, sou seu filho. Não se assuste, eu sei que você é nova demais pra ter filho, que isso é um absurdo e que você só tá namorando. Sou seu filho de 22 anos, te mandando essa carta pra te acalmar.
Lá vai um choque de realidade para você: Você vai descobrir que está grávida e vai casar. Isso ai, chupa essa manga. Mas quer saber a boa notícia, isso vai ser o início de uma nova família, uma feliz e unida, a minha.

Agora vamos aos fatos, eu não mudaria um pingo da minha criação, então parabéns. Não vim dar dicas, porque provavelmente algum ‘eu’ de 50 anos já descobriu como mandar cartas pro passado e te avisou de tudo o que você deveria saber, ou alguém lhe deu o dom da maternidade, não decidi ao certo. To aqui só pra te dizer que você deitou. Mãe te dá a luz, te alimenta, te veste e te cria, mãe te educa, forma caráter e encaminha, mãe te empurra, te segura e te apóia, mas principalmente mãe dá amor. Obrigado Leticia 22 anos mais nova, obrigado por ser tão mãe, a mãe dos poetas, a mãe dos filmes, e a mãe dos livros. Tenho que confessar que pintei mesmo aquela parede, mas não sabia que o batom era novo e caro, e quando fui apanhar não me culpe, é instinto e sobrevivência correr do perigo, eu errei sim, mas sempre sem querer, e quando errei de propósito não foi pra te chatear, mas ainda assim, desculpa. Meus votos são que você faça exatamente o que você pretende fazer, cada passo, cada palavra e cada bronca, para que daqui a 22 anos você tenha um filho que te ama e que te admira sobre tudo.

Te amo mulher, feliz aniversário.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Nasceu



Nasceu, nasceu, espalhem as novas
Avise a Sherlock que  eu tenho provas
Mas não houve crime nem contravenção
Mande-o vir e trazer o ‘caro Watson’

Isso da samba, avise o Cartola
Chame Dominguinhos, o Jorge e Paulinho
Mas fale pra ele não esquecer da Vióla
Que hoje vai ter de partido-alto a chorinho

Mande o Machado esconder do Bentinho
Porque ela não pode cruzar seu caminho
Se dos olhos de ressaca saiu Ezequiel
Ele vai morrer por seus olhos de mel

E o Pessoa que prepare o humor
Pois serei um rídiculo incurável
Com milhões de cartas de amor
E um sentimento esdrúxulo intocável

Mande Van Gogh parar de besteira,
Que aquele Gauguin não vale uma orelha
E mande-o também parar de fazer cena
Para pintar logo algo bonito pra minha pequena

Avise ao Cazuza, exagerado sou eu
Me jogo ao seus pés, como ele prometeu
E eu condordo quando ele diz aquilo
De ter a sorte de um amor tranquilo

Enfim, hoje nasceu o amor da vida de todos vocês
Hoje nasceu o amor da vida do amor.



Parabéns pelo dia de seu nome Daniele Tavares, amo você.

sábado, 15 de março de 2014

Meu amigo

 

 

Sou melancólico por natureza

Réu confesso da tristeza

Do infortúnio, da incerteza

Mas em tudo isso, há beleza

 

E lhe digo em verdade

Que ainda há vaidade

Aversão à intimidade

Mas aprendi que nunca é tarde

 

Ouso te dizer amigo

Que depois de a ter comigo

Minha vida faz sentido

E é com ela que hoje eu sigo

 

E completo camarada

Que depois de sua chegada

Se o amor virou piada

Não seguro uma risada

 

Meu amor não é diferente

Faz o melhor da gente

Deixa meu sangue quente

E meu coração dormente

 

Sendo assim meu chegado

Se um dia for amado

Ame muito, desregrado

E quando estiver cansado

Ame mais um bocado.

 

 

Escrevi na quinta, mas não tinha coragem de postar, acho que agora não faz mais diferença.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Partida e consequência.




Como ir embora se meu futuro está talhado na cabeceira da sua cama, meus pesares seguram as cartas que lhe enviei para que o vento ou o tempo não soprem para longe, meus infortúnios e minhas penas dormem dentro do seu travesseiro velando seu sono e garantindo os mais doces sonhos, assim como meu calor se esforça para te manter aquecida a noite, independente de quantos abraços isso custe. Me diz como pode você que bebeu das minhas lagrimas e comeu minha alma me pedir para partir? Depois de se fazer meu lar, de me amar sem ressalvas como pode me pedir pra deixa-la?

Digo que não, pode você não me querer mais aqui, pode você se enganar e partir mas seu coração ainda bate por mim, carregando meu sangue nas veias e me fazendo sentir seu amor, seu sorriso mesmo quando forçado ainda leva minhas piadas sem Graça, minhas imposturas e minhas desinteligências, nas suas mãos ainda existe o vão que meus dedos magros e desajeitadamente grandes deixaram e na sua mente, entre um sapato e uma notícia popular, meus apelos ainda ecoam longínquos em sintonia aos seus, que foram aprisionados nas grades que um dia guardou nosso amor.

Não,  não vou partir, te condeno a ser feliz comigo, te sentencio a ver todos os dias pela manha meus olhos brilhantes a se iluminar com seu reflexo, te castigo com todos os versos de amor que essa mão possa exprimir,  com todas as batidas que esse coração possa apanhar, todos os sorrisos, todos os beijos que a urgência dos meus lábios saciarem, todos os "não"s que me obrigarei a dizer e todos os "sim" que me forem permitidos. Te condeno ao meu amor.

Isto posto, te reservo o diteito de defesa, como a lei obriga, e informo que toda queixa será retirada mediante a devolução dos bens roubados, são estes, você inteira e minha metade de volta.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A peça

 

 

 

O vento sonoro da sua respiração, ecoado entre afagos e carinhos e refletindo num poço de virtudes o que somos. Somos um. Somos vários. Em meios aos gritos e pragas de amor, segue tênue e quase subconsciente um pedido, implora-se por mais, por menos e por tudo. Imploro por ti.

Cada dia sem seus olhos é cego, cada dia sem seu calor é gélido, cada noite sem seu carinho é breu. Como se cada vida que rasteja pelos cantos da cidade estivesse a procura de ti, ou alguem que seja para eles o que você é para mim. O encaixe (im)perfeito, que range, emperra mas nunca quebra nem deixa de funcionar, aquele que mantêm as coisas em ordem, e os sentimentos ordenando.

Guardo, para você, numa mala preta de couro todos os ‘sim’ que um homem pode dizer sem perder a hombridade, guardo embaixo da cama todos os poréns que possam existir entre a gente, jogo aos sete mares as sete pontas da estrela que lhe entrego, jogo aos seus cuidados de presente, meu futuro e passado.

E no meu passado, os pertences perderam poder, praticamente privados de preciosismo, perecem de pesar em pequenos palacetes. Podendo parar, pensar e ponderar, porque persistimos nos poréns, porque passamos a passagem privados do proveito, privados da paixão…

Não entendo quem diz que não ama porque não quer, quem poderia negar mutar-se para o melhor de si, ainda levar a razão consigo no peito?