"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."
(Campos, Álvaro de. Tabacaria. Portugal, 1928)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Herói



E tudo parecia ele, o dia, o fogo queimando o carvão e até o sol resolveu aparecer para saudá-lo. Aquilo era o resumo do que ele é, a alegria, as pessoas, os sorrisos, o churrasco e a cerveja. Foi um aniversário simples, não teve bolo e nem discurso. Não tive tempo nem de comprar seu presente, e me senti mal por isso. Ele aparentemente não ligou muito, ele nunca liga, ele é o tipo de pessoa que tira do proprio prato só pra matar a vontade de um dos filhos.


Com ele aprendi a ser homem, a querer mais, a não desistir (as custas de muita bronca). Por causa dele vou ser engenheiro. Um dia pretendo ser metade do que ele é. Parabéns atrasado pai, te amo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Minha





           E ela girava, linda, rodopiava e me circulava como se estivesse em órbita, quando quem se movia apenas em função dela era eu. Havia momentos em que eu pensava estar louco, ela ocupava o salão todo, ela possuía o lugar, pra onde eu olhava ela balançava, e o swing de seu cabelo perfumava todo o ambiente. As vezes me chamava para dançar, pegava na minha mão e me obrigava a me mover, sempre contra a minha vontade. Eu não queria dançar, dançar requer atenção, e eu só queria prestar atenção naquela menina, quantos segundos de sorriso eu perderia por pisar no seu pé, quantos olhares seriam lançados ao vento se eu tivesse me preocupando em arrastar meus pés desajeitados em harmonia com os seus, que são habilidosos e delicados. Não sei, não quis saber, fiquei ali olhando, com vontade de dizer para todos que aquela que iluminava o salão é minha.

           Mas que egoísmo o meu querer tudo aquilo só pra mim, acho que o mundo tem a mesma dependência que eu, o mundo precisa de você. Quem vai adoçar meu café amargo, quem vai colorir meu quarto, quem vai me dar afago e quem vai encher meu peito vago? Dia desses me perguntei o que faria com todo esse amor se um dia você fosse embora e descobri uma coisa interessante, te daria. Esse amor é seu, não existe amor se você não estiver, não existem flores sem sol, mas não existem tão-pouco sem chuva. Você é desde o dia de verão mais quente na beira da praia até a noite mais fria e chuvosa do inverno.




Enfim, quero que o mundo se dane. Você é minha!

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Raios



Estive me perguntando esses dias, de onde vem o amor.

Ele vem dos planos, da incerteza, e de você.



Hoje a mensagem é que você irradia amor. O meu.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Quem lava a louça?



          Estávamos conversando sobre quem lavaria a louça naquele futuro ideal e entre segundas e quartas ou terças e quintas o assunto morreu em risadas, era uma segunda feira a noite com algum brilho na lua e um clarão de alegria nos dois pares de olhos que se entre olhavam. Era uma calmaria, depois de velejarmos por mil tempestades, depois de enfrentarmos mil monstros e depois de nos perdermos mil vezes, tínhamos uma calmaria. Era um abraço, algo para comer e a vista do infinito, como se nossas vidas fossem infinitas e ignorássemos o fato de que, se realizarmos todos os nosso planos, morreremos com 200 anos. Planejamos 3, até 4 vidas juntos e nem percebemos.
         Mas todo carnaval tem sua quarta-feira.
         Dormimos ao som do cavaco e acordamos cantarolando, sol a pino e sem ao menos imaginar que a última tempestade estava por vir. Porque é assim, se você já está sob a chuva até guarda seus pertences e se prepara para nadar, se não... E ela veio, foi então que percebi que navegando ali só tinha eu, estava eu velejando por mares revoltos enquanto ela podia nadar, Eu era barco. Ela era mar.
         Agora não adiantaria mais nada, era eu preso como um pilar ao chão e ela mergulhando e saltando sobre a água como se tivesse asas. Aquele navio afundou comigo, ao léu dos esforços daquela menina, estava eu, no fundo do mar, abraço comigo mesmo e esperando por nada.
         Recusei sim a oferta dela me carregar, já tínhamos tentado, não tenho asas, voltarei sempre ao chão ou serei peso morto, qualquer das possibilidades me dá arrepios. Por mim, velejava numa lagoa, ou melhor, velejava no quintal de casa, em terra firme, em segurança. Tenho medo de altura, também não voaria longe. Ela voou, eu fiquei.


        No fim não decidimos quem lavaria a louça, mas acho que está implícito, os dois lavam, cada um a sua, cada um na sua.


No fim os dois perdem, risos.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Parabéns Mãe




Oi Leticia, sou seu filho. Não se assuste, eu sei que você é nova demais pra ter filho, que isso é um absurdo e que você só tá namorando. Sou seu filho de 22 anos, te mandando essa carta pra te acalmar.
Lá vai um choque de realidade para você: Você vai descobrir que está grávida e vai casar. Isso ai, chupa essa manga. Mas quer saber a boa notícia, isso vai ser o início de uma nova família, uma feliz e unida, a minha.

Agora vamos aos fatos, eu não mudaria um pingo da minha criação, então parabéns. Não vim dar dicas, porque provavelmente algum ‘eu’ de 50 anos já descobriu como mandar cartas pro passado e te avisou de tudo o que você deveria saber, ou alguém lhe deu o dom da maternidade, não decidi ao certo. To aqui só pra te dizer que você deitou. Mãe te dá a luz, te alimenta, te veste e te cria, mãe te educa, forma caráter e encaminha, mãe te empurra, te segura e te apóia, mas principalmente mãe dá amor. Obrigado Leticia 22 anos mais nova, obrigado por ser tão mãe, a mãe dos poetas, a mãe dos filmes, e a mãe dos livros. Tenho que confessar que pintei mesmo aquela parede, mas não sabia que o batom era novo e caro, e quando fui apanhar não me culpe, é instinto e sobrevivência correr do perigo, eu errei sim, mas sempre sem querer, e quando errei de propósito não foi pra te chatear, mas ainda assim, desculpa. Meus votos são que você faça exatamente o que você pretende fazer, cada passo, cada palavra e cada bronca, para que daqui a 22 anos você tenha um filho que te ama e que te admira sobre tudo.

Te amo mulher, feliz aniversário.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Nasceu



Nasceu, nasceu, espalhem as novas
Avise a Sherlock que  eu tenho provas
Mas não houve crime nem contravenção
Mande-o vir e trazer o ‘caro Watson’

Isso da samba, avise o Cartola
Chame Dominguinhos, o Jorge e Paulinho
Mas fale pra ele não esquecer da Vióla
Que hoje vai ter de partido-alto a chorinho

Mande o Machado esconder do Bentinho
Porque ela não pode cruzar seu caminho
Se dos olhos de ressaca saiu Ezequiel
Ele vai morrer por seus olhos de mel

E o Pessoa que prepare o humor
Pois serei um rídiculo incurável
Com milhões de cartas de amor
E um sentimento esdrúxulo intocável

Mande Van Gogh parar de besteira,
Que aquele Gauguin não vale uma orelha
E mande-o também parar de fazer cena
Para pintar logo algo bonito pra minha pequena

Avise ao Cazuza, exagerado sou eu
Me jogo ao seus pés, como ele prometeu
E eu condordo quando ele diz aquilo
De ter a sorte de um amor tranquilo

Enfim, hoje nasceu o amor da vida de todos vocês
Hoje nasceu o amor da vida do amor.



Parabéns pelo dia de seu nome Daniele Tavares, amo você.

sábado, 15 de março de 2014

Meu amigo

 

 

Sou melancólico por natureza

Réu confesso da tristeza

Do infortúnio, da incerteza

Mas em tudo isso, há beleza

 

E lhe digo em verdade

Que ainda há vaidade

Aversão à intimidade

Mas aprendi que nunca é tarde

 

Ouso te dizer amigo

Que depois de a ter comigo

Minha vida faz sentido

E é com ela que hoje eu sigo

 

E completo camarada

Que depois de sua chegada

Se o amor virou piada

Não seguro uma risada

 

Meu amor não é diferente

Faz o melhor da gente

Deixa meu sangue quente

E meu coração dormente

 

Sendo assim meu chegado

Se um dia for amado

Ame muito, desregrado

E quando estiver cansado

Ame mais um bocado.

 

 

Escrevi na quinta, mas não tinha coragem de postar, acho que agora não faz mais diferença.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Tudo sobre saudade



Já dentro do quarto sua sombra revelava as curvas mais perfeitas já imaginadas entre os mortais, como dois montes admiráveis seus seios despontam de um tronco desenhado com maestria e capricho e eram sustentados com realeza e leveza como se estivessem orgulhos do corpo que lhes fora dado. E na penumbra de um quarto à meia luz seu abdômen indicava o caminho com a pele delicada que refletia os poucos raios da lua cheia que brilhava naquela noite.

Com o rosto encoberto pela escuridão e as coxas e sexo maliciosamente ocultados por um lençol de ceda escarlate, sua voz ecoou nas paredes do quarto, e de minha alma me chamando para perto de você e lutando contra todos os meus instintos, pois o desejo de que o tempo resolvesse descansar naquele instante só não era maior do que a vontade quase animal de me jogar sobre você te fazendo sentir todo o meu peso e todo o meu desejo de uma só vez, caminhei em sua direção contando os passos, contando talvez as vidas que passaríamos juntos e guardando mentalmente cada movimento seu, com a esperança de que um dia pudesse imprimir minhas memórias, emoldura-las e exibi-las num museu particular, para que só meus olhos egoístas pudessem ver.

Conforme a distância entre nós diminuía, como as cortinas do maior espetáculo do mundo, o luar revelava mais de você e apesar de conhecer todos os seus traços, naquele momento senti o retesar dos músculos do meu corpo, ao ver como você me olhava, com os olhos de felina depositados sobre os meus, pobres olhos deslumbrados, quase me congelou, entretanto lá estava eu em movimento novamente, apesar do sinal de perigo que estampava seus olhos cor de mel meu corpo continuava a ir em sua direção, como se exercito nenhum no mundo pudesse me parar, o banquete estava servido, e eu era a presa me oferecendo pra ser abatido.
Incontáveis as ondas de arrepios que se seguiram ao primeiro contato, sua boca suspirando na minha, seus cachos entre meus dedos, minhas mãos explorando seu corpo como se o tato fosse meu único sentido, e era, assim como eram também todos os outros. Reconheceria seu cheiro inebriante submerso por mil oceanos, ouviria um gemido sussurrado a meio mundo de distância e te veria nua em lugares que você nunca chegou a pisar. E tudo isso se emaranhava e rodava conosco na cama, e eu cego, surdo e mudo sentia o bico rígido do seu seio dançar com a minha língua, suas unhas traçavam as mais perfeitas linhas em minhas costas e sua boca procurando a minha encontrava as veias do meu pescoço, meu corpo e por fim meu sexo. Eram feitos um para o outro, sua língua ágil parecia controla-lo e se enrolava, rodeava e acariciava-o tão intensamente que minha pulsação acelerava, a ponto de explodir você me olhava nos olhos e seu olhar ansiado me fazia respirar e apenas um pensamento dominava meu consciente.

“Eu tenho que levar essa mulher ao êxtase”

Sem eu menos esperar tinha todas as suas curvas sobre mim e com um sussurro pediu “Te quero dentro de mim”, aquelas palavras foram recebidas como uma ordem.
Meu membro pulsava e latejava por você e como que se nunca tivesse estado em outro lugar ele escorregou por entre suas pernas molhadas. Te sentir por dentro foi inexplicável, inenarrável, imensurável. Em meio as contrações, suspiros e sussurros minha virilidade entrava e saia como as ondas na beira da praia e assim como o mar beija as montanhas incessantemente eu colava meu rosto no seu, minha boca na sua e então nossos gemidos eram um. O ritmo da nossa dança aumentou e como seu homem, tornei-me a única coisa entre você e o céu, era eu então seu único caminho ao paraíso, nossos corpos suados se chocavam, a pele macia da sua boceta contraía e meu pau respondia com mais uma investida, os gemidos se tornavam gritos, as mãos que outrora ofereciam carinho agora apertavam, puxavam e batiam, quando suas costas começaram a arquear te coloquei de quatro, suas costas brilhavam de suor e sua boca sorrindo de prazer se transformou num suspiro quando voltei a penetrar, sua bunda contra minha pele, seus cabelos na minha mão, na outra a sua cintura. Meu corpo se aproximava no êxtase quando me segurei e percebi em sua voz cada vez mais alta, e seus gemidos cada vez mais incontroláveis que nosso ponto alto estava próximo.

E como a última nota de um saxofone naquele antigo Blues, gozamos juntos, você gritou, se contraiu e me puxou pra perto de você, estávamos ligados, unidos e éramos um. Ainda com minha semente escorrendo entre suas pernas nos deitamos, já era dia e o sol despendia da janela iluminando o quarto e os dois amantes que se olhavam com olhos que acabaram de substituir o desejo carnal por ternura, mas que nunca, em nenhum momento deixaram de carregar consigo o amor, mutuo e intocável.

Exausto beijei sua testa, seu rosto e seus lábios, você sorriu e um segundo antes de dormir a vida toda fazia sentido.

(Estou com saudades meu amor.)